Todas as gerações do passado se percebiam como o centro do universo. Sentíamo-nos especiais, e nossas antigas cosmologias refletiam isto. Éramos a criação mais sublime de Deus, o estado da arte da criatividade divina. Sempre fomos antropocêntricos, mas desde que Copérnico empurrou a Terra para fora do centro e Newton desvendou um cosmo mecanicista, um mal-estar sobreveio a humanidade. Destronados pela ciência, nossos mitos perderam seu apelo centralizador. Passamos a ser apenas poeira estelar em um pálido ponto azul, a girar em torno de uma estrela inconspícua entre milhões de outras, em uma galáxia periférica entre bilhões de outras galáxias. Subitamente nos tornamos muito pequenos, aparentemente insignificantes. No lugar das antigas cosmologias que nos colocavam no centro do cosmo e nos proporcionavam significado, fomos inundados com uma enxurrada de dados científicos frios, que pouco ou nada significam para a maioria das pessoas. Mas isto não é motivo para pânico, pois de acordo com o cosmólogo Joel R. Primack e sua esposa, a advogada e filósofa da ciência Nancy Ellen Abrams, a própria ciência está novamente a puxar-nos de volta para o centro, embora de maneiras inusitadas.


No livro Panorama Visto do Centro do Universo, Primack e Abrams nos convidam a abarcar o cosmo com nossas mentes. Eles prosseguem a pintar um quadro facilmente compreensível da normalmente abstrusa e críptica cosmologia moderna. Utilizam metáforas inovadoras e ilustrações inteligentes para mostrar ao leitor que, de diversas formas cientificamente comprovadas, nós de fato ainda estamos no centro do universo.

Claro que não se trata de uma defesa pseudocientífica do geocentrismo ptolemaico. Afirmam: “não existe centro geográfico para um universo em expansão, mas somos centrais de várias formas inesperadas, que derivam diretamente da física e da cosmologia – por exemplo, estamos no centro de todos os tamanhos possíveis no universo, somos feitos do material mais raro, vivemos a meio caminho do tempo tanto para o universo como para a Terra. Essas e outras formas de centralidade foram descobertas científicas, não uma forma antropocêntrica de interpretar os dados”. (pág.16)

O livro também não contém nenhuma crítica negativa às cosmologias dos povos do passado. Os autores tratam os antigos mitos com profunda admiração e respeito, algo relativamente raro no meio acadêmico, recheado como é de intelectuais anti-religiosos. Primack e Abrams exploram as cosmologias da antiguidade, em especial as que competem às culturas basais da civilização ocidental (egípcia, hebraica, grega, e européia medieval), e elaboram como os antigos mitos preenchiam a necessidade humana de significado.    

Primack e Abrams enfatizam a importância da linguagem mítica como ferramenta humana para gerar significado, assim como do uso de metáforas como a única maneira através da qual a mente humana pode compreender conceitos abstratos. Os autores se valem destas ferramentas para criar novas alegorias cosmológicas, visando fazer da cosmologia moderna algo compreensível a leitores leigos.

Entre tais alegorias está o Uróboro Cósmico. Uróboros, para os antigos gregos, eram serpentes que engoliam suas próprias caudas. O Uróboro Cósmico de Primack e Abrams é um símbolo que ilustra as escalas de tamanho da natureza, desde a menor, que é o comprimento de Planck, arbitrariamente representado pela ponta da cauda da serpente, até a maior, que é o horizonte cósmico representado pela cabeça da serpente. Ao longo da cauda encontram-se vários objetos de várias dimensões, desde partículas subatômicas até aglomerados de galáxias. Bem no meio do escopo das escalas encontramos o Homo sapiens, em “Midgard”: uma confortável região nas escalas cósmicas amigável ao surgimento e evolução da vida.

Com a alegoria das Esferas Cósmicas do Tempo, os autores explicam que estamos no centro de nosso próprio horizonte cósmico visível. Quanto mais longe observamos com nossos telescópios astronômicos, mais distante no passado estão os corpos celestes que avistamos, chegando a um limite de quatorze bilhões de anos. Os céus são uma ampla e extensa visão do passado, onde podemos encontrar os ecos do Big Bang, e os primórdios das galáxias, estrelas, e mundos. Embora de uma forma psicológica atrelada à nossa percepção subjetiva, nós humanos nos encontramos bem no centro desta enorme esfera cósmica.

A composição do cosmo, em termos de matéria e energia, é ilustrada com a alegoria da Pirâmide da Densidade Cósmica. Aqui os autores se valem de um símbolo originalmente maçônico, comumente encontrado na moeda norte americana: a pirâmide com o olho que tudo vê. A princípio, desconfiei que os autores tivessem alguma proposta supersticiosa com o uso de tal símbolo, tão usado e abusado por esotéricos e ocultistas, mas o leitor não encontrará teorias de conspiração dos Illuminati em Panorama. O modo que Primack e Abrams usam este símbolo é estritamente pedagógico, para ilustrar graficamente as proporções da composição material do universo, com 0,01% de matéria visível, 0,5% de hidrogênio e hélio, 4% de átomos invisíveis, 25% de matéria escura, e 70% de energia escura. Apenas a matéria visível, 0,51% da pirâmide, se encontra acima do solo. O que se vê nas notas de um dólar seria apenas o topo. Como ocorre com os icebergs, o resto estaria escondido abaixo da superfície. A maior parte da matéria do universo não é visível, mas a vida na Terra se encontra apenas no pouco que se pode ver: o material diretamente derivado das estrelas, que é o hidrogênio, o hélio, e os átomos mais pesados. A matéria e a energia escuras, responsáveis pela formação e coesão das galáxias, são abundantes no cosmo (95%), mas não aqui onde vivemos. Com esta alegoria os autores explicam detalhadamente que somos feitos do material mais raro do universo: poeira estelar, que é a pequena parcela visível retratada no topo do infográfico. Nós humanos somos luminosos, pois somos feitos de estrelas.

“A história do universo está em cada um de nós. Cada partícula em nosso corpo tem um passado de 1 multibilhão de anos, cada célula e cada órgão do corpo tem um passado de um multimilhão de anos, e muitas de nossas formas de pensar têm passados com multimilhares de anos”. (pág.184)

Estamos bem no centro do tempo cósmico, pois no princípio o cosmo era muito denso e quente para o surgimento, evolução, e manutenção da vida, e daqui a bilhões de anos será muito esparso e frio. Apenas em nossa época cósmica as “zonas de cachinhos dourados”, regiões amigáveis à evolução biológica, são possíveis. Estamos também em um ponto médio da história da evolução na Terra, entre sua formação há 4,5 bilhões de anos e sua destruição, daqui a seis bilhões de anos, quando o Sol se tornará uma gigante vermelha. O período de mil milênios em que vivemos é o mais favorável à biosfera terrestre.

Os limites da velocidade da luz, a teoria geral da relatividade, a inflação cósmica, a formação das galáxias; tudo isso e muito mais os autores contemplam em “Panorama Visto do Centro do Universo”. A enormidade do milagre de estarmos aqui, bem no centro de um extraordinário cosmo em evolução, merece ser interpretada e divulgada mitologicamente, devolvendo ao homem moderno o sentimento de centralidade e propósito outrora desfrutado por nossos antepassados.      

Primack e Abrams não têm a pretensão de criar uma nova mitologia que seja definitiva. Pretendem apenas apontar o caminho para que uma nova cultura mitologicamente dinâmica e cientificamente rigorosa possa ser coletivamente criada em nosso tempo. Estamos em um ponto crucial para o futuro de nossa espécie. As escolhas feitas hoje determinarão a sustentabilidade futura do planeta. Apenas uma visão cosmológica comum a toda a humanidade, profundamente enraizada na realidade cientificamente desvendada, pode ultrapassar os limites culturais que dividem os povos e engendrar a sinergia global necessária para a sobrevivência da humanidade a longo prazo. Os autores defendem esta tese com desenvoltura, em um belo livro que o levará a nunca novamente olhar para o firmamento estrelado com os mesmos olhos.

Panorama Visto do Centro do Universo - a descoberta de nosso extraordinário lugar no cosmos
Joel R. Primack e Nancy Ellen Abrams
Companhia das Letras, 2008
Tradução: Maria Guimarães

Website dos autores: The View from the Center of the Universe