Os criacionistas de terra jovem alegam que todas as camadas sedimentares, com suas sucessões de fósseis, são resultantes de um dilúvio global no tempo de Noé ocorrido a aproximadamente uns quatro mil anos atrás. Todas as espécies extintas encontradas no registro fóssil teriam sido criadas a meros seis mil anos juntamente com o homem e com todas as espécies vivas hoje existentes. Antes do dilúvio, o homem teria sido contemporâneo dos dinossauros. Aliás, todas as espécies do passado e do presente teriam sido contemporâneas, ou pelo menos todos os respectivos “tipos fixos básicos” (baramins) de cada espécie.

De acordo com o criacionismo, a distribuição de fósseis na coluna geológica sedimentar da terra seria produto da capacidade de cada espécie de escapar das águas do dilúvio por mais tempo. Espécies que viviam na mesma região teriam sido soterradas juntas, o que resultaria em camadas rochosas diferentes com diversidades ecológicas distintas (como isso ocorreria em continentes inteiramente implodindo sobre “hidroplacas” os criacionistas não explicam).

Pterodactilos são encontrados em camadas rochosas inferiores às dos pássaros porque apenas “planavam”, não conseguindo fugir da catástrofe como os pássaros que conseguiam bater as asas e voar mais longe (aonde os criacionistas tiraram a idéia de que pterodáctilos não batiam asas eles não explicam, e aonde eles já viram pássaros capazes de voar por 40 dias e 40 noites eles não dizem).

Artrópodes como os trilobitas teriam sido soterrados em camadas mais profundas devido a seus formatos hidrodinâmicos, que os fez afundar mais rápido (porque caranguejos não foram soterrados com os trilobitas os criacionistas não explicam).

Vertebrados terrestres teriam sido capazes de fugir do dilúvio para locais de maior altitude, sendo soterrados nas camadas mais altas (Como hamsters teriam conseguido escapar às águas violentas do dilúvio com maior eficiência que velociraptors os criacionistas não explicam).

Angiospermas (plantas com flores) estariam ausentes de camadas inferiores às atribuídas ao Cretáceo por terem existido apenas em uma região isolada do globo antes do dilúvio, sendo geograficamente segregadas já antes do soterramento (como em dois mil anos desde a criação os angiospermas não se espalharam por toda parte os criacionistas não explicam). A correlação faunal da evolução dos angiospermas no registro fóssil é muito bem documentada. Imaginem só uma rosa tentanto fugir de um dilúvio, tentando alcançar uma região mais elevada mais rapidamente que a extinta Archaeofructus sinensis! Conseguiu?

Ocorre que se homens e dinossauros coexistiram com espécies extintas e modernas, evidentemente que devem ter compartilhado suas dietas alimentares contemporâneas. O que havia para comer antes do dilúvio é o que os dinossauros devem ter comido, não é mesmo? Onde haviam angiospermas, algum bicho deve tê-las comido. Onde haviam flores e frutas haviam herbívoros para come-las.

A evidencia fóssil da dieta de animais extintos é as vezes encontrada fossilizada junto com os próprios esqueletos (e.g.: Plessiossauros com conchas de amonitas, moluscos da mesma era geológica, fossilizadas no estomago). Muito mais abundantes, porém, são os coprólitos, que são fezes fossilizadas. Milhares de exemplares de coprólitos já foram encontrados, tanto de dinossauros como de mamíferos extintos, et cetera. Os coprólitos são fósseis e por isso não tem mal cheiro nenhum, e são datados da mesma maneira que outros fósseis. 

Os criacionistas acusam os geólogos de raciocínio circular, alegando que eles determinam as datas de fósseis de acordo com a camada geológica em que se encontram, e depois determinam a idade da camada geológica baseando-se nos fósseis nela encontrados. Fezes fósseis, porém, viram o argumento criacionista de cabeça para baixo! O conteúdo de um coprólito, que pode ser utilizado na datação de rochas sedimentares, com sua característica única de refletir a fauna da mesma era geológica em que o animal que o defecou viveu! Por exemplo: Um fóssil de Apatossauro indica que a camada é do período Jurássico tardio, o que é confirmado por datação radiométrica dos sedimentos onde o fóssil foi encontrado, e depois uma avaliação de um coprólito encontrado na mesma camada sedimentar, que nem precisa ser obra do dito Apatossauro, confirma que a dieta alimentar de um dinossauro que viveu ali continha restos de plantas ou animais da mesma era geológica. Fóssil > Camada > Conteúdo residual de coprólitos.

Bastaria encontrar um osso de canino nas fezes de um Tiranossaurus rex para provar que dinossauros e cães foram contemporâneos! Bastaria encontrar sementes de girassol nas fezes de um Stegossauro para provar que dinossauros e plantas modernas coexistiram. Bastaria encontrar ossos de golfinho nas fezes de um Pleissiossauro para provar que sauropterígeos marinhos extintos e cetáceos modernos coexistiram. 

Onde estão os fragmentos de ossos humanos nas fezes de Tiranossauros? Onde estão as sementes de maracujá nas fezes de Tricerátops? Onde estão os restos de atum nas fezes de Ichthiossauros?

Formulo aqui, portanto, a seguinte pergunta a ser respondida pelos criacionistas:

Porque os conteúdos dos coprólitos (fezes fósseis) de animais extintos consistentemente refletem a fauna das mesmas eras geológicas em que são encontrados, sem exceção? 

Infelizmente para os criacionistas, os coprólitos são uma evidencia clara das dietas dos animais extintos em suas respectivas eras geológicas. Isso é verificável em cada coprólito já coletado e pesquisado. Não espere encontrar um coprólito com restos de animais ou plantas de eras geológicas diferentes da camada sedimentar onde o coprólito foi encontrado. Tal simplesmente não ocorre!

Se apenas um coprólito fosse encontrado que provasse a contemporaneidade de animais de eras geológicas distintas, os criacionistas só teriam a lucrar com isto. Então porque os “cientistas da criação” não estão vasculhando coprólitos em busca de evidência geocronológica inconsistente? Porque não existe pesquisa criacionista sendo feita em cima de coprólitos?  

A resposta é simples. Em primeiro lugar é muito mais fácil ganhar dinheiro fazendo palestras de criacionismo para leigos em igrejas. Mas o principal motivo é por que os “cientistas da criação” sabem muito bem que nunca vão encontrar nada em coprólito algum que prove que organismos de eras geológicas distintas tenham coexistido.  

Os "cientistas da criação" sabem muito bem que estão errados, mas eles tem um público cativo disposto a pagar por palestras, livros, fitas, apostilas, et cetera. A margem de lucro é muito alta, especialmente nas mídias gravadas.

E assim o mundo gira.

Informações adicionais:

Verbete da Wikipedia em português sobre coprólitos.

Verbete da Wikipedia em inglês sobre coprólitos.

Artigo do US Geological Survey sobre coprólitos.

Artigo do periódico científico PALAIOS sobre coprólitos.