Entre os maiores especialistas da atualidade em estudos do Novo Testamento estão Marcus J. Borg e John Dominic Crossan. Borg, professor de religião e cultura na Oregon State University, e Crossan, co-fundador do Jesus Seminar, autores de várias obras acerca do Jesus histórico, decidiram formar uma parceria literária e colaborar em dois fascinantes livros sobre Jesus: A Ultima Semana e O Primeiro Natal. Os escoliastas também compartilham a autoria de um livro sobre o apóstolo Paulo intitulado The First Paul: Reclaiming the Radical Visionary Behind the Church's Conservative Icon, ainda sem tradução para o português.  

No livro A Última Semana: um relato detalhado dos dias finais de Jesus, Borg e Crossan levam o leitor a refletir sobre os relatos da prisão, execução, e ressurreição de Jesus à luz da razão e da história. Os autores mostram como tais relatos são cheios de significado, e buscam esclarecer as razões políticas por trás da execução de Jesus, e os ideais pelos quais Jesus lutou.  Um significado incomum da expressão “paixão de Cristo” é explorado: os autores buscam descrever os ideais pelos quais Jesus era apaixonado, ao invés de focar em seu sofrimento.

O livro é dividido em oito capítulos, um para cada dia da Semana Santa, começando no Domingo de Ramos e chegando ao clímax no Domingo de Páscoa. Os autores baseiam-se no evangelho de Marcos, o mais antigo dos quatro evangelhos canônicos, pois o mesmo apresenta uma narrativa mais estruturada, e foi usado como fonte documentária pelos outros evangelhos sinóticos. A postura de Jesus em oposição ao eixo Jerusalém-Roma é discernível em todo o evangelho de Marcos, e os autores comentam o significado de cada parábola e cada resposta dada por Jesus a seus adversários em seu contexto histórico, social, e político. A figueira que não produz frutos, o episódio dos vendilhões do templo, a parábola dos lavradores gananciosos, a indagação sobre os impostos devidos a César, a indagação sobre os sete irmãos que se casam com a mesma mulher, o sermão da montanha, as profecias contra Jerusalém, et cetera. “A Última Semana” é um livro que basicamente abrange todo o evangelho de Marcos.    

Logo no início, os autores contrastam duas procissões antagônicas, que ocorreram em um dia de primavera do ano 30 AD. Do leste veio Jesus, sentado em um humilde burrinho, recebido por uma multidão de discípulos e simpatizantes a exclamar “hosana” e a jogar folhas de palma pelo caminho. Do oeste veio a procissão militar de Pôncio Pilatus, que residia em Cesarea Maritma, mas se deslocava para Jerusalém durante os festivais judaicos com o propósito de conter o risco de desordem política, pois a capital da Judéia se lotava com até duzentos mil peregrinos. Os autores não apresentam qualquer evidência histórica que comprove que ambas as procissões tenham ocorrido no mesmo dia, e suponho que podem muito bem ter ocorrido em dias diferentes, mas o que realmente importa é que tais procissões foram politicamente antagônicas. Os autores explicam que “o desfile de Pilatus personificava não apenas o poder imperial, mas também a teologia imperial romana - segundo a qual o imperador não era simplesmente o governante de Roma, mas o Filho de Deus” (pág 17). Por outro lado, o desfile de Jesus foi um “contracortejo” combinado, planejado antecipadamente por Jesus, cujo significado era bem claro para os judeus, que tão bem conheciam o texto de Zacarias 9:9-10.

Alegra-te muito, ó filha de Sião; exulta, ó filha de Jerusalém; eis que vem a ti o teu rei; ele é justo e traz a salvação; ele é humilde e vem montado sobre um jumento, sobre um jumentinho, filho de jumenta. De Efraim exterminarei os carros, e de Jerusalém os cavalos, e o arco de guerra será destruído, e ele anunciará paz às nações; e o seu domínio se estenderá de mar a mar, e desde o rio até as extremidades da terra. -Zacarias 9:9-10

De acordo com Borg e Crossan, a entrada triunfal de Jesus foi “uma entrada antiimperial, antitriunfal, uma sátira deliberada do imperador conquistador entrando numa cidade a cavalo, através de portões abertos numa submissão abjeta” (pág 50).

O contraste entre estas duas procissões antagônicas se estende por toda a duração da última semana de Jesus, que inaugurou a primeira páscoa cristã. De um lado estava o poder de Roma a compactuar com as elites religiosas e intelectuais de Jerusalém, em um relacionamento espiritualmente adúltero. Do outro lado estava Jesus e seus discípulos, a proclamar de forma não-violenta o ideal utópico do Reino de Deus e sua justiça.

Os autores explicam em detalhes como funcionava o “sistema de dominação” ao qual Jesus se opunha. Tal sistema, comum às civilizações pré-industriais agrárias da antiguidade, era definido por três características principais: a opressão política, a exploração econômica, e a legitimação religiosa. As elites, em especial as famílias dos sumos-sacerdotes de Jerusalém, compactuavam com os militares romanos no confisco sistemático de terras, principalmente através da cobrança de dívidas que tinham propriedades rurais como garantia. Esta situação causou um êxodo rural de famílias camponesas que perdiam suas terras assim que ocorria uma safra ruim. A opressão dos camponeses pela classe sacerdotal dominante se opunha diametralmente aos ideais de justiça social da Torá, algo que provocou o surgimento de várias facções dissidentes, tanto as violentas, como os “zelotes”, quanto as pacíficas, entre as quais estava o movimento cristão incipiente.     

Jesus era o profeta dos oprimidos que, destituídos de sustento próprio, lutavam para sobreviver em busca de mão-de-obra nos latifúndios, em obras de construção nas cidades, e a esmolar. Como seu antecessor João, o batista, ele rejeitava a legitimidade religiosa dos sacerdotes do templo de Jerusalém. O batismo de João era para o perdão dos pecados, função que os sacerdotes do templo reivindicavam para si. Jesus expandiu a tradição de João, proclamando o arrependimento e o perdão de pecados independentemente dos sacrifícios oferecidos pelos sacerdotes das elites. Os ideais do Reino de Deus, como Jesus os proclamava, eram ideais de Justiça social. No Reino, os humildes serão exaltados, e os orgulhosos serão humilhados. Os pobres herdarão a terra, e será mais fácil que um camelo passe pelo buraco de uma agulha do que um rico conseguir entrar no Reino de Deus, Reino este que já estava presente mas ainda não havia se manifestado em sua plenitude. Com esta mensagem Jesus enfrentou seus inimigos, as elites do eixo Jerusalém-Roma, que o crucificaram.

Borg e Crossan explicam que Jesus não era necessariamente anti-templo e nem anti-sacerdócio, pois se tratavam de instituições tradicionais do judaismo estabelecidas nas escrituras. No entanto, ele se opunha à corrupção dos sumos-sacerdotes do templo de Jerusalém e os via como traidores por se submeterem ao poder de Roma.

Jesus também não era necessariamente contra o comércio religioso quando, na segunda-feira, protestou contra os vendilhões do templo. A interpretação mais comum é a de que Jesus se opunha ao comércio religioso dentro da casa de Deus. Na exegese de Borg e Crossan, tal não era o caso. Jesus sabia que “os trocadores de moedas e vendedores de animais eram perfeitamente legítimos e absolutamente necessários para o funcionamento normal do templo. As compras e vendas aconteciam no gigantesco pátio dos gentios. Os trocadores de moedas eram indispensáveis para que os peregrinos judeus pudessem pagar o imposto do templo apenas com moedas autorizadas. Comprar animais no local era o único modo de os peregrinos terem certeza de que as criaturas eram ritualmente adequadas ao sacrifício” (pág. 68). O que justifica, então, as acusações de Jesus contra os vendilhões do templo? Os autores explicam que Jesus esclareceu a intenção de seu protesto contra o comércio do templo ao citar Isaías 56:7 e Jeremias 7:11, como relatado em Marcos 11:17.

...e ensinava, dizendo-lhes: Não está escrito: A minha casa será chamada casa de oração para todas as nações? Vós, porém, a tendes feito covil de salteadores. - Marcos 11:17

“...um covil é um esconderijo, uma casa segura, um refúgio. Não é onde os ladrões roubam, e sim para onde eles fogem em segurança depois de terem roubado outros lugares” (pág. 69). Os ladrões roubavam as terras dos camponeses, confiscavam as propriedades das viúvas, e no templo efetuavam a lavagem de dinheiro e separavam os impostos devidos a César.   

Na terça-feira Jesus foi agressivamente interpelado pelos sumos-sacerdotes e pelos doutores da lei (os escamosos advogados de sua época). Jesus se desvencilhou de várias armadilhas astuciosas, dando a seus oponentes respostas desconcertantes e embaraçosas. Borg e Crossan dissecam e explicam cada confronto em minucioso detalhe.

Na quarta-feira os sumos-sacerdotes conspiram contra Jesus. A popularidade do Mestre impossibilita sua prisão em público, pois tal poderia provocar uma revolta popular. Borg e Crossan explicam que, para que a prisão de Jesus ocorresse em segredo, longe das multidões, foi necessária a colaboração de um traidor que pudesse localizá-lo e identificá-lo.

Na quinta-feira Jesus participa com seus discípulos de sua última refeição, protótipo do rito eucarístico da missa cristã. A última ceia de Jesus seria a primeira ceia do futuro. Em A Última Semana, Borg e Crossan exploram os múltiplos significados políticos e religiosos da Santa Ceia. Inclusão social, a justiça do Reino de Deus, o pão como base material da existência, o cordeiro sacrificado como vínculo entre Jesus e a libertação de Israel do Egito, estes e outros significados são explorados pelos autores. Também a prisão de Jesus no Getsêmani, assim como os julgamentos subseqüentes, são dissecados de forma detalhada.

No capítulo referente à sexta-feira os autores abordam a questão da expiação de pecados. As doutrinas da expiação por resgate, formulada no período da patrística, e da expiação por substituição penal de Santo Anselmo de Cantuária, recebem atenção especial dos autores. Infelizmente, a teoria moral de Pedro Abelardo e a teoria governamental de Hugo Grotius não são mencionadas no livro. Neste capítulo, as narrativas da execução e do enterro de Jesus são explicadas como mesclas de história relembrada e profecias retrospectivamente historicisadas.

Quem matou Jesus? O sistema de dominação o executou. Jesus não simplesmente morreu pelos pecados do mundo, mas morreu por causa dos pecados do mundo. A injustiça dos homens matou Jesus. Qual era sua culpa? Jesus era culpado de “resistência não violenta à opressão imperial romana e à colaboração das autoridades judaicas” (pág 193). Desde o começo de seu ministério, Jesus estava em trajetória de colisão com o sistema de dominação.

No sábado deparamo-nos com a afirmação do credo apostólico, de que Jesus “desceu ao inferno”. De acordo com os autores o credo aqui não se refere a um local de penas eternas, como encontramos em teologias cristãs posteriores, mas ao sheol judaico, uma “expressão geral para sepultura” (pág 196). Jesus teria descido à morada dos mortos para libertar os justos que ali se encontravam cativos. A crença em uma recompensa no pós morte, antes totalmente ausente no judaísmo antigo, teve sua origem na perseguição dos Seleucidas aos judeus por volta de 160 AC. Tal perseguição inspirou o conteúdo do livro de Daniel, e posteriormente o relato evangélico das ressurreições dos justos no Sábado de Aleluia, e de suas aparições após a ressurreição de Jesus. Aqui os autores contrastam Marcos 15:37-39 com Mateus 27:50-54. O tema da ressurreição dos justos só é desenvolvido por Mateus, que usou Marcos como fonte e expandiu sobre sua narrativa.

O livro termina no Domingo de Páscoa. Borg e Crossan explicam que a narrativa da paixão de Cristo no evangelho de Marcos é composta por história lembrada e profecias retroativamente historicisadas, mescladas com a linguagem de parábolas e metáforas para expressar significados “mais do que factuais”, ou seja, significados que transcendem a necessidade de factualidade.

O cerne do capítulo final é a afirmação de que Jesus vive. Jesus não está entre os mortos, mas vive nos corações de seus discípulos. Os opressores que crucificaram Jesus foram derrotados, e ele foi vingado por Deus. Se Jesus foi vingado por Deus, então ele é o Senhor, e César não é. Os sacerdotes do templo e os doutores da lei não tem autoridade alguma, mas a Jesus foi dada autoridade sobre o céu e a Terra. Borg e Crossan explicam que a ressurreição de Jesus tem duas implicações: a transformação pessoal e a transformação política. Ao cristão é mister aceitar a Jesus como salvador pessoal, e assim “morrer para um antigo modo de ser e renascer num novo modo de viver” (pág 243). No entanto, para fazer jus aos ideais que Jesus defendia, é necessário aceitá-lo também como salvador e senhor político.

Desde o início o cristianismo foi conhecido como “o caminho”, e para os discípulos o caminho de Jesus culminava em Jerusalém, onde ocorreu o confronto com as elites opressoras que compactuavam com Roma. Seguir a Jesus é participar de sua paixão e carregar com ele sua própria cruz “até Jerusalém”, de forma a enfrentar os sumos-sacerdotes e os escribas que, ao “devorarem as casas das viúvas”, anulam a justiça do Reino de Deus. Para os cristãos de hoje, a tarefa é a mesma: confrontar os sistemas de dominação que oprimem o povo de Deus. O Império Romano já se foi, mas em cada época novos impérios se erguem. É mister tomar a própria cruz e seguir a Jesus no caminho. 

A leitura de A Última Semana: um relato detalhado dos dias finais de Jesus, de Marcus Borg e John Dominic Crossan, é indispensável para todos os interessados em estudar o Jesus histórico, tanto cristãos como de outras religiões, ou sem-religião.


A Última Semana: um relato detalhado dos dias finais de Jesus.
Marcus Borg e John Dominic Crossan 
Editora Nova Fronteira, 2006 
Tradução: Alves Calado

Websites dos autores:

A Portrait of Jesus

John Dominic Crossan

Jesus and Paul