“A seleção natural é a maneira mais cega e cruel de se evoluir novas espécies, e organismos mais e mais complexos e refinados... ainda mais cruel por ser um processo de eliminação, de destruição. A luta pela vida e eliminação do mais fraco é um processo horrível, contra o qual toda a nossa ética moderna se revolta. Uma sociedade ideal é uma sociedade não seletiva, na qual os fracos são protegidos; o que é exatamente o inverso da assim chamada lei natural. Me surpreende que um cristão defenderia a idéia que este é o processo que Deus mais ou menos estabeleceu para obter a evolução”.

Jacques Monod - bioquímico ganhador do Premio Nobel de Medicina.

Sabemos que os ecossistemas da terra não contêm apenas competição mortal entre espécies mas também cooperação e interdependência. Ver a evolução como algo puramente frio e cruel é considerar apenas um dos lados da moeda. Mas a crueldade fria da seleção natural realmente é um problema que tem de ser confrontado pela teologia.

O problema em questão é um tipo de teodicéia, ou seja, como justificar a existência de um Deus benevolente em face à existência do mal no universo, neste caso exemplificado pela brutalidade fria e aleatória da seleção natural. Pessoalmente eu acho que nenhuma teodicéia proposta até hoje é plenamente satisfatória. Uma teodicéia que responda plenamente a questão da existência do mal está para a teologia assim como a “teoria do tudo” está para a física.

Os teólogos cristãos que mais se empenharam em solucionar esse problema são os católicos Karl Rahner, Edward Schillebeeckx, e John Haught, e o padre anglicano John Polkinghorne, emérito físico da universidade de Cambridge. Entre as soluções apresentadas estão as chamadas teologias de processo derivadas da filosofia de Alfred North Whitehead.

Karl Rahner afirma que a idéia de revelação antecipa um cosmo em evolução. Ele afirma que o mistério infinito de Deus abraça com amor sua criação total e generosamente, sem reservas. Porem o universo finito não poderia receber a plenitude da infinidade de Deus de imediato, mas de forma incremental, adaptando-se à fonte infinita de amor por um processo de expansão, manifestado materialmente como as evoluções cósmica e biológica.

O teólogo Edward Schillebeeckx afirma a participação de Deus no sofrimento do mundo. A exemplo de Cristo, Deus escolhe o caminho da auto aniquilação (kenosis), e não da auto-glorificação. Em cristo vemos um Deus que se humilha, submetendo-se à crucificação como cordeiro por livre e espontânea vontade. Este Deus kenótico de auto derramamento é aquele que ama a criação ao ponto de ausentar-se dela, proporcionando-a com a livre agencia de se desenvolver de forma autonomamente criativa.

John Polkinghorne afirma que o sofrimento do mundo é redimido quando Deus sofre junto com a criação: ". . . o Deus cristão é o Deus crucificado, não apenas um expectador compassivo do labor da criação, mas também verdadeiramente um co-sofredor que compreende.”

John F. Haught é entusiasta da teologia de processo. Ele afirma que a evolução deriva da liberdade proporcionada pelo amor de Deus pela criação, que se manifesta como amor persuasivo e não como força coerciva. Um Deus que abraça sua criação persuasivamente é muito mais poderoso que um deus ditador, que força o universo a se submeter às intenções divinas com punho de ferro, de forma a impedir a existência do mal e do sofrimento. Um Deus que ama a criação é fonte não só de ordem, mas também de inovação, através de elementos essenciais à vida como instabilidade e desordem, que viabilizam a evolução das espécies.

A teologia evolucionista compreende que o cosmo não foi meramente criado em um ponto no passado, mas está ainda em processo contínuo de criação, no qual a evolução é uma imagem reveladora da humildade kenótica de Deus. John Haught reconhece que “a teologia evolucionista expande o quadro do sofrimento de Deus, incluindo nele também as lutas de todo o universo e não apenas a breve história da nossa espécie aqui. A empatia de Deus envolve não apenas a esfera humana, mas a totalidade da criação, e isto só pode significar que a vasta odisséia evolucionista, com todo o seu trabalho, satisfação e criatividade, é também o próprio trabalho, satisfação e criatividade de Deus”.

Recomendo a leitura do livro “Deus Após Darwin” de John F. Haught, publicado no Brasil pela editora José Olympio.