A Intolerância de Richard Dawkins
A maior estrela do “novo ateísmo” é o
biólogo britãnico Richard Dawkins, autor da obra “Deus, Um Delírio”. Dawkins já escreveu
livros muito interessantes, como “A Escalada do Monte Improvável”, uma
excelente defesa do darwinismo. Ocorre que quando Dawkins se afasta da ciência,
se aventurando a escrever sobre filosofia, o resultado é lamentável. Em “Deus,
Um Delírio” o autor escancara seus preconceitos, demonstrando notável intolerância
para com todos os que professam alguma religião. Dawkins simplifica em excesso,
menciona os piores exemplos de religiosidade, cita os piores fanáticos, ignora
conceitos teológicos importantes do século XX, acusa religiosos liberais e
moderados de servirem de justificativa para o fundamentalismo, e diz que todas
as manifestações de religiosidade devem ser expurgadas da face da terra.
"Deus, Um Delírio" é uma obra de monumental desinformação.
Em “Deus, Um Delírio” Dawkins corretamente refuta as
baboseiras criacionistas, e corretamente mostra o que o fanatismo pode causar à
humanidade, mas no capítulo 8 ele injustamente alega que a religiosidade
moderada serve como adubo que incentiva o fanatismo a crescer (pg 311). Talvez
isso ocorra no contexto islâmico, pois a maioria dos exemplos que Dawkins
apresenta são do islamismo, mas certamente a alegação não se sustenta no
contexto do cristianismo. Os cristãos moderados não apóiam os excessos dos
fundamentalistas. Muito pelo contrário, os contestam.
Abaixo eu cito uma passagem do prefácio à edição de bolso de
"Deus, Um Delírio", na qual Dawkins rebate ao seguinte argumento:
VOCÊ SEMPRE ATACA O QUE HÁ DE PIOR NA RELIGIÃO E IGNORA O QUE HÁ DE
MELHOR.
"Você persegue oportunistas grosseiros e incendiários como Ted Haggard,
Jerry Falwell e Pat Robertson, em vez de teólogos sofisticados como Tillich ou
Bonhoeffer, que ensinam o tipo de religião em que acredito."
Dawkins responde da seguinte forma:
"Se o predomínio fosse só dessa espécie sutil e amena de religião, o mundo
sem dúvida seria um lugar melhor, e eu teria escrito outro livro. A melancólica
verdade é que esse tipo de religião decente e contida é numericamente
irrelevante. Para a imensa maioria de fiéis no mundo todo, a religião parece-se
muito com o que se ouve de gente como Robertson, Falwell ou Haggard, Osama bin
Laden ou o aiatolá Khomeini. Não se trata de testas-de-ferro; são todos
influentes demais e todo mundo hoje em dia tem de lidar com eles".
Acho que Dawkins deve voltar ao editor de texto e
escrever outro livro! O modo com que argumenta em "Deus, Um Delírio" simplesmente
não é justo. Dawkins relata atentados terroristas por cristãos
ultra-fundamentalistas à clinicas de aborto e à médicos aborcionistas, como se
tais fossem a regra. Ele menciona Paul Hill e seu "Exercito de Deus"
(pág 304) como se tais fossem representativos do perfil típico do
fundamentalismo evangélico americano. Nada poderia estar mais distante da
verdade! Eu mesmo passei cinco anos de minha vida no meio evangelico
norte-americano, quatro deles na Liberty University em Lynchburg VA, epicentro do
fundamentalismo e da direita religiosa americana, e posso assegurar que nunca
encontrei ninguém, nenhum crente, que tivesse a ambição de explodir uma clínica
de abortos, ou de matar algum médico que fizesse abortos. Nunca conheci nenhum
evangélico fundamentalista nem nos EUA e nem aqui no Brasil que tivesse
intenções de violentamente atacar aborcionistas ou hereges ou o que quer que
seja. Paul Hill e seus malucos são uma minoria tal que não deve ser maior que
meia centena de pessoas, enquanto que os cristãos que se classificam como
"nascidos de novo" nos Estados Unidos correspondem à uns 70 a 80
milhões de pessoas (28.5% da população). O que meia centena de gatos-pingados
significam perante 70 milhões de pessoas!?
Note agora o preconceito de Dawkins:
"Se o predomínio fosse só dessa espécie sutil e amena de religião, o mundo
sem dúvida seria um lugar melhor, e eu teria escrito outro livro. A melancólica
verdade é que esse tipo de religião decente e contido é numericamente
irrelevante".
Ora, de acordo com o estudo “American Piety in The United States”, do Baylor
University Institute for Studies of Religion, a porcentagem da população
americana que se classifica como "cristã liberal" é 13.8%,
estatisticamente quase o dobro do grupo que se classifica como "cristã
fundamentalista" (7.7%)! Os liberais são uns quarenta e um milhões de
pessoas só nos Estados Unidos! Apesar de admitir que a religiosidade liberal é
"decente", Dawkins a despreza como "numericamente
irrelevante", contradizendo os dados estatísticos! Tal atitude é
simplesmente irresponsável e injusta, mas faz sentido quando consideramos a
agenda ateísta militante de Dawkins. Enquanto isso, a meia centena do
"Exercito de Deus" do Paul Hill é numericamente significante o
suficiente para Dawkins!
Jesus Cristo, na narrativa dos evangelhos, estabeleceu um padrão de tolerância
para com aqueles que viviam na periferia da sociedade: os pobres, os leprosos,
os samaritanos (considerados hereges pela ortodoxia religiosa da época), os
oprimidos pelo status quo político e religioso constituido pela aliança
corrupta entre as elites romana e judaica, etc. Jesus pregava a vinda de um
Reino de Justiça para os pobres e marginalizados, e os cristãos tem a
responsabilidade de ser agentes desta justiça na sociedade. A discriminação e a
intolerância dos fundamentalistas são injustificáveis quando confrontadas aos
padrões de tolerância de Jesus que, de acordo com os evangelhos, afirmou que
devemos amar não somente ao próximo mas até mesmo aos nossos inimigos. Ser
tolerante faz parte do que significa ser cristão.
Dawkins simplesmente ignora cristãos progressivos e liberais, fazendo algumas poucas menções superficiais e corriqueiras à teólogos por ele referidos como "sofisticados", como se estes fossem de pouca ou nenhuma importância. Desde o iluminismo a teologia cristã tem amadurecido tremendamente na interpretação da Bíblia e no exame auto-crítico das atitudes erradas do passado, e isso deveria merecer mais do que mera menção no prefácio da edição de bolso de "Deus, Um Delírio".
Confira na página 16 do documento abaixo os dados estatísticos:
“American Piety in The United States”, Baylor University Institute for Studies of Religion
Veja
também:
The
Association of Religion Data Archives
In : Filosofia
Tags: dawkins deus ateu ateísta ateísmo cristianismo teologia filosofia religião fanatismo fundamentalismo biologia
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